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O futuro já chegou
São
Paulo, 22 de março de 2000 (Edição
710) - O impacto verdadeiramente revolucionário da
Revolução da Informação
está apenas começando a ser sentido. Mas
não é a informação que vai
gerar tal impacto. Nem a inteligência artificial. Nem o
efeito dos computadores sobre processos decisórios,
determinação de políticas ou
criação de estratégias. É
algo que praticamente ninguém previa, que nem mesmo era
comentado 10 ou 15 anos atrás: o comércio
eletrônico - ou seja, a emergência explosiva da
Internet como importante (e, talvez, com o tempo, o mais importante)
canal mundial de distribuição de bens,
serviços e, surpreendentemente, empregos na área
administrativa e gerencial. É ela que está
provocando transformações profundas na economia,
nos mercados e nas estruturas de indústrias inteiras; nos
produtos, serviços e em seus fluxos; na
segmentação, nos valores e no comportamento dos
consumidores; nos mercados de trabalho e de emprego. Mas talvez seja
ainda maior o impacto exercido sobre a sociedade, a política
e, sobretudo, sobre a visão que temos do mundo e de
nós mesmos.
Ao
mesmo tempo, novas e inesperadas indústrias vão
surgir, sem dúvida alguma - e rapidamente. Uma delas
já está entre nós: a biotecnologia.
Outra é a criação de peixes. Nos
próximos 50 anos, a criação de peixes
pode nos transformar de caçadores e coletores marinhos em
pecuaristas marinhos. Exatamente como mais ou menos 10000 anos
atrás, uma inovação semelhante
transformou nossos ancestrais de caçadores e extrativistas
em agricultores e pastores.
É
provável que outras tecnologias surjam de repente, levando
à criação de novas
indústrias. É impossível sequer dar um
palpite quanto à sua natureza. Mas que elas vão
surgir, e em pouco tempo, é altamente provável.
Na verdade, é quase certo. E é quase certo que
poucas - e só algumas das indústrias baseadas
nelas - virão dos computadores e da informática.
Como a biotecnologia e a criação de peixes, cada
uma surgirá a partir de tecnologia própria e
inesperada.
É
claro que isso tudo não passa de previsões. Mas
elas são feitas com base na premissa de que a
Revolução da Informação vai
seguir o mesmo caminho percorrido por várias outras
evoluções tecnológicas nos
últimos 500 anos, desde a revolução da
imprensa iniciada por Gutenberg em 1455. A premissa é,
especialmente, que a Revolução da
Informação vai ser semelhante à
Revolução Industrial do final do
século 18 e início do século 19. E, de
fato, é exatamente assim que a
Revolução da Informação tem
sido em seus primeiros 50 anos.
A
ferrovia
A
Revolução da Informação se
encontra no ponto em que a Revolução Industrial
estava no iníco da década de
1820, cerca de 40 anos depois de a máquina a vapor
aperfeiçoada por James Watt (montada pela primeira
vez em 1776) ter sido aplicada a uma operaçao
industrial - a fiação de
algodão E a máquina a vapor
foi para a primeira Revolução Industrial, aquilo
que
o computador vem sendo para a Revolução da
Informação: seu gatilho, mas
também e sobretudo, seu símbolo.
Hoje em dia, quase todo mundo acredita que nunca na história
econômica alguma coisa avançou tão rapidamente
ou exerceu um impacto maior do que a
Revolução da Informação.
Mas a Revolução Industrial
avançou pelo menos tão rapidamente
quanto ela no mesmo espaço de tempo e, provavelmente,
exerceu impacto igual - se não maior.
Resumindo: ela mecanizou a maioria dos processos
manufatureiros, começando com o do produto
industrial básico mais importante do século 18 e
início do 19: os têxteis. A Lei de Moore diz que
o preço do elemento básico da
Revolução da Informação,
o microchip, cai 50% a cada 18 meses.
O mesmo se aplicava aos produtos cuja manufatura foi
mecanizada pela primeira Revolução
Industrial. O preço dos tecidos de algodão caiu
90% nos 50 primeiros
anos do século 18. Durante o mesmo
período, a produção de tecidos de
algodão foi multiplicada
por 150, apenas na Grã-Bretanha.
Embora os têxteis fossem o produto que mais chamava a
atenção no início da
Revolução Industrial, essa
também mecanizou a produção de
praticamente todos os outros produtos mais importantes, como papel,
vidro, couro e tijolos. O impacto não se limitou, de
maneira alguma, aos bens de consumo. A produção
de ferro e de seus derivados - arame,
por exemplo - mecanizou-se e passou a ser movida por máquinas
a vapor, na mesma velocidade que os
têxteis e com os mesmos efeitos sobre custos,
preços e volumes
produzidos. No final das guerras napoleônicas, a
produção de armas em toda a Europa já
era movida
a vapor. Canhões eram feitos de um
vigésimo a um décimo do tempo anterior, e o custo
caiu mais
de dois terços. Na mesma época, Eli Whitney
tinha mecanizado a manufatura de mosquetes nos Estados
Unidos, criando a primeira indústria de
produção em massa.
Esses 40 ou 50 anos viram surgir as fábricas e a chamada
classe operária. Em meados dos anos de 1820, ambas ainda
existiam em número tão pequeno
na Inglaterra que, em termos estatísticos, eram
insignificantes. Psicologicamente, porém, já
dominavam (e não demorariam a fazê-lo
também em termos políticos). Antes de surgirem
fábricas nos
Estados Unidos, Alexander Hamilton previu um país
industrializado em seu Report on Manufactures, escrito em 1791. Uma
década mais tarde, o economista francês
Jean-Baptiste Say percebeu que a
Revolução Industrial havia transformado a
economia, criando a figura do empreendedor.
As conseqüências
sociais ultrapassavam de
longe a
fábrica e a classe operária. Como já
observou o historiador Paul Johnson em A History of the American People
(1997),
foi o crescimento explosivo da indústria têxtil,
baseada
na máquina a
vapor, que infundiu vigor renovado à escravatura. Vista
pelos
fundadores da república americana como praticamente extinta,
a escravidão renasceu assim que o descaroçador de
algodão, que pouco depois
já seria movido a vapor, gerou uma demanda enorme por
mão-de-obra de baixo custo, transformando, por algumas
décadas, a reprodução de escravos na
mais lucrativa indústria dos Estados Unidos.
A Revolução
Industrial também causou
um forte impacto sobre a família. A família
nuclear já era, havia muito tempo, a unidade de
produção. Marido,
mulher e filhos trabalhavam juntos na fazenda e na oficina do
artesão. A fábrica, praticamente pela
primeira vez na história, tirou o trabalho e o trabalhador
de casa, deixando para trás alguns membros da
família. Na verdade, a crise da família
não começou depois da Segunda Guerra Mundial. Ela
teve
início com a Revolução Industrial e
era a maior preocupação de seus opositores (e do
sistema de
produção em fábricas). Provavelmente,
a melhor descrição do divórcio entre
trabalho e
família e do efeito que exerceu sobre ambos é a
que Charles Dickens fez em Hard Times (Tempos Difíceis), de
1854.
Apesar de todos esses efeitos, a
Revolução
Industrial, em seu primeiro meio século, apenas mecanizou a
produção de bens já existentes. Ela
aumentou tremendamente a produção e
diminuiu tremendamente os custos. Gerou tanto consumidores
quanto
bens de consumo. Mas os bens
já existiam havia muito tempo. E os produtos
manufaturados
nas novas fábricas
diferiam dos tradicionais apenas por serem uniformes, com menos
defeitos que os existentes naqueles feitos pelos
artesãos de épocas anteriores.
Nesses primeiros 50 anos houve apenas
uma
exceção, um produto novo: o barco a vapor,
viabilizado por Robert Fulton em 1807, que só foi exercer
grande impacto
30 ou 40 anos mais tarde. Até quase o final do
século 19, os navios a vela ainda transportavam
mais carga pelos oceanos do mundo que os navios a vapor.
Mas em 1829 surgiu a estrada de ferro,
um produto verdadeiramente
inusitado, que transformou para sempre economia, sociedade e
política. Em retrospecto,
é difícil imaginar por que a ferrovia demorou
tanto para ser inventada. Estradas com trilhos já eram
usadas havia muito tempo para movimentar vagões de carga em
minas de carvão. O que haveria
de mais óbvio que atrelar o vagão a uma
máquina a vapor, em vez de empregar homens ou cavalos para
movimentá-lo?
Mas a estrada de ferro não
surgiu a partir dos
vagões usados nas minas. Sua origem foi inteiramente outra.
E ela não foi criada para transportar cargas. Ao
contrário. Durante muito tempo, foi vista apenas como meio
de transporte humano. Só nos Estados Unidos, 30
anos mais tarde, os trens começaram a ser usados para
transportar cargas. Na verdade, ainda nas
décadas de 1870 e 1880, os engenheiros britânicos
contratados para construir as estradas de ferro no
recém-ocidentalizado Japão as projetaram
para transportar apenas passageiros. Mas, até entrar em
operação, a primeira estrada de ferro foi algo
que virtualmente ninguém tinha previsto.
Cinco anos mais tarde, porém,
o mundo ocidental
já vivia o maior boom da História: o boom
ferroviário. Pontuado pelos picos mais espetaculares da
história econômica mundial, esse boom continuou
por 30 anos na Europa, até o final dos anos de
1850, quando já tinham sido construídas as
principais ferrovias hoje existentes. Nos Estados Unidos, o boom se
manteve por outros 30 anos. Em países mais distantes do
centro, como Argentina, Brasil,
Rússia e China, até a Primeira Guerra Mundial.
A estrada de ferro foi o elemento
verdadeiramente
revolucionário da Revolução
Industrial, pois não apenas criou uma nova
dimensão
econômica, como
também transformou rapidamente aquilo que eu chamaria de
geografia mental. Pela primeira vez na história,
as pessoas tinham mobilidade real. O horizonte das pessoas comuns se
ampliou, também pela
primeira vez. Elas se deram conta imediatamente de que estava ocorrendo
uma
transformação fundamental na mentalidade. Um bom
relato disso pode ser encontrado naquele que certamente
constitui
o
melhor retrato da sociedade em transição da
época
da
Revolução Industrial, o romance Middlemarch
(1871), de George Eliot.
Como observou o grande historiador
francês
Fernand Braudel em
sua última obra importante, A Identidade da
França
(1989), foi a ferrovia que fez da
França uma nação única, com
uma cultura única. Antes, o país já
era um
aglomerado de
regiões politicamente interligadas, mas cada uma delas
girava em
torno de seu próprio umbigo. E o papel da ferrovia na
consolidação do Oeste é amplamente
conhecido na
História dos Estados Unidos.
ROTINIZAÇÃO
Como a Revolução
Industrial dois
séculos atrás, a Revolução
da Informação, desde a chegada dos primeiros
computadores, em meados da década de 1940,
não fez mais do que transformar processos já
existentes. Na verdade, o grande impacto da
Revolução da Informação
não tem se dado sob a forma de
informação. Quase nenhum dos efeitos visualizados
40 anos atrás se concretizou. Por exemplo, não
houve praticamente mudança alguma na maneira como
são tomadas as decisões mais importantes no
âmbito econômico ou governamental.
Mas a Revolução da
Informação facilitou e tornou rotineiros
processos tradicionais em inúmeras áreas.
O software de
afinação de pianos reduz de
três horas para 20 minutos o tempo da
operação. Há softwares para folha de
pagamentos, controle de estoque, cronograma de
entregas e todos os demais processos nas empresas. Projetar as
instalações
internas de um prédio grande como um hospital
ou uma penitenciária
(tubulações de
água, energia, gás e esgotos etc.) era algo que
antes ocupava 25 desenhistas habilidosos por 50 dias. Hoje, existe um
programa por meio
do qual um único profissional dá conta do recado
em dois ou três dias, a uma
minúscula fração do custo anterior.
Há softwares que ajudam as
pessoas a preencher
formulários de impostos e outros que ensinam
médicos residentes a fazer uma cirurgia para retirada de
vesícula. Quem especula nas bolsas hoje faz exatamente o que
era feito nos anos 20. Só que, na
época, passava-se horas e horas diárias numa
corretora de ações. Os processos não
mudaram nada - apenas foram rotinizados, passo a passo, possibilitando
uma economia imensa de tempo e, muitas vezes, de
dinheiro.
O impacto psicológico da
Revolução da
Informação tem sido fortíssimo, como
aconteceu com a Revolução Industrial. Talvez
tenha sido maior na
maneira como as crianças aprendem. Hoje em dia,
crianças de quatro anos ou até menos
já aprendem a mexer com computadores, em pouco tempo
superando os adultos. Os computadores são brinquedos e
ferramentas de aprendizado. Daqui a 50 anos, é bem
possível que concluamos que não
houve crise no ensino americano nos últimos anos do
século 20. Houve apenas uma crescente
incongruência entre a maneira
como as escolas ensinavam e a maneira como as
crianças aprendiam.
Algo semelhante se deu na universidade
do
século 16, mais de
100 anos depois da invenção da imprensa e dos
tipos
móveis. Mas, no que diz respeito
à nossa maneira de trabalhar, a
Revolução da Informação
veio apenas
rotinizar aquilo que
já era feito havia muito tempo. A única
exceção é o CD-ROM, inventado
há cerca de
20 anos para apresentar
óperas, cursos universitários ou a
obra completa de
um autor de maneira totalmente nova. Como o barco a vapor, o CD-ROM
não pegou de imediato.
O SIGNIFICADO DO COMÉRCIO ELETRÔNICO
O comércio
eletrônico representa para a
Revolução da Informação o
que a ferrovia foi para a Revolução Industrial:
um avanço
totalmente inusitado, inesperado. E, como a ferrovia de 170 anos
atrás, o comércio eletrônico
está gerando um boom novo e distinto, provocando
transformações aceleradas na economia, na
sociedade e na política.
Exemplo: uma empresa de
dimensões médias no
meio-oeste industrial dos Estados Unidos, fundada na década
de 20 e hoje administrada pelos netos do fundador,
dominava cerca de 60% do mercado de louças de baixo
preço utilizadas por redes de
fast-food, hospitais e refeitórios de escolas e
escritórios, num raio de 160 quilômetros em torno
da fábrica.
Louça é um produto pesado e que quebra com
facilidade, de modo que a louça barata costuma ser vendida
em áreas restritas.
Essa empresa perdeu mais de metade de
seu mercado praticamente da noite
para o dia. Um dos clientes, uma cafeteria de hospital, descobriu,
depois que um dos
funcionários saíra navegando pela Internet, um
fabricante europeu que oferecia louça de
qualidade aparentemente superior, mais barata. E que, ainda
por cima, era remetida de avião a um custo baixo.
Em questão de meses, os principais clientes da
região passaram a comprar do fornecedor europeu.
Parece que poucos se dão conta de que a louça vem
da Europa - e muito menos se preocupam com isso.
Na nova geografia mental criada pela
ferrovia, a
humanidade dominou a
distância. Na geografia mental do comércio
eletrônico, a distância foi
eliminada. Existe apenas uma economia e um mercado. Uma
conseqüência disso é que toda empresa
precisa se tornar competitiva em nível global, mesmo que
produza
ou venda apenas dentro de um mercado local ou regional. A
concorrência já deixou de ser local. Na verdade,
não conhece fronteiras. Toda empresa
precisa tornar-se transnacional na forma de ser administrada.
Mas é muito
possível que a multinacional
tradicional se torne obsoleta. Ela produz e distribui em uma
série de geografias distintas, aspecto no qual é
uma empresa local. No comércio eletrônico
não existem empresas locais, nem geografias distintas. Onde
produzir, onde vender e
como vender vão continuar sendo decisões
importantes para as empresas. Mas
é possível que, dentro de 20 anos, elas
não mais determinem o que a empresa faz, nem como ou onde o
faz.
Ao mesmo tempo, ainda não
está claro que tipo de
produto e serviço será comprado e vendido por
meio do comércio eletrônico, nem que tipo vai se
revelar inadequado para ele. Isso tem acontecido toda vez que aparece
um novo canal de distribuição. Por
que, por exemplo, a ferrovia transformou a geografia tanto mental
quanto econômica do Oeste, se o navio a vapor -
que exerceu impacto igual sobre o comércio mundial e o
transporte de passageiros -
não fez nenhuma das duas coisas? Por que não
houve nenhum boom do navio a vapor?
O impacto das mudanças mais
recentes nos canais de
distribuição tem sido igualmente pouco claro.
Essas mudanças são, por exemplo, a passagem da
mercearia de bairro para o supermercado, do supermercado para a cadeia
de supermercados e da cadeia de
supermercados para o Wal-Mart e outras redes de lojas de descontos.
Já está claro que a
passagem para o comércio eletrônico
será tão eclética e cheia de surpresas
quanto essas.
Um exemplo: há 25 anos
acreditava-se, de modo geral, que no
prazo de algumas décadas a palavra impressa seria enviada
eletronicamente para as telas dos computadores
de assinantes individuais. Os assinantes teriam a
opção de ler os textos na
tela ou imprimi-los. Foi essa a premissa subjacente ao
lançamento do CD-ROM. Assim, um número muito
grande de jornais e revistas, não só nos Estados
Unidos, se estabeleceram no mundo online. Até hoje
pouquíssimos deles viraram minas de ouro. Mas qualquer
pessoa que, 20 anos atrás, tivesse previsto a
existência da Amazon.com - ou seja, que livros seriam
vendidos pela Internet, mas entregues ao consumidor na forma
impressa, pesada - teria sido motivo de chacota. Apesar disso,
é exatamente o que a
Amazon.com faz em todo o mundo. O primeiro pedido da
edição americana de meu livro mais
recente, Management Challenges for the 21st Century (1999), foi
recebido pela Amazon.com e veio da Argentina.
Outro exemplo: dez anos
atrás, uma das maiores montadoras
mundiais fez um estudo abrangente do impacto previsto da
então emergente Internet sobre as vendas
de carros. A conclusão foi que a Internet se transformaria
em importante canal de
distribuição de carros usados, mas que os
clientes ainda iriam querer ver os carros novos,
tocá-los e testá-los.
O que vem acontecendo na realidade, pelo menos até agora,
é que a maioria dos carros usados continua sendo
comprada não pela Internet, mas em revendedoras. Enquanto
isso, metade de todos os carros zero vendidos
(excluindo os de luxo) já podem ser comprados por meio da
Internet. As revendedoras só
entregam carros que os clientes escolheram muito antes de pôr
os pés na revendedora. Quais as
implicações disso para o futuro das revendedoras
locais, o mais lucrativo pequeno comércio do
século 20?
Terceiro exemplo: com
freqüência cada vez maior, os
corretores que atuam no mercado acionário americano negociam
ações pela Internet. Mas os
investidores parecem estar comprando menos online. O maior canal de
investimento nos Estados Unidos são os
fundos mútuos. Enquanto, alguns anos atrás, quase
metade dos fundos mútuos eram comprados
eletronicamente, estima-se que essa proporção
caia para 35% em 2000 e 20% até 2005. É o
contrário do que todo mundo previa, há 10 ou 15
anos.
O comércio
eletrônico que mais cresce
nos Estados
Unidos ocupa uma área que, até agora, nem sequer
era
comércio propriamente dito: o de empregos para
funcionários administrativos, gerentes e executivos. Quase
metade das maiores empresas do mundo hoje contrata
por meio de Web sites. E cerca de 2,5 milhões de
administrativos
e gerentes (dois
terços dos quais não são engenheiros
ou
profissionais da área da informática)
têm seus currículos na Internet e buscam emprego
por meio dela. O resultado é um mercado de trabalho
completamente novo. Isso ilustra outro efeito importante do
comércio
eletrônico. Canais de distribuição
novos mudam a identidade dos clientes e compradores. Eles modificam
não
apenas a maneira como os fregueses compram, mas também o que
compram. Transformam o
comportamento dos consumidores, os padrões de
poupança, a
estrutura de indústrias, em suma,
a economia por inteiro. É isso que está
acontecendo hoje. Não apenas nos Estados Unidos, mas, cada
vez
mais, no
resto do mundo desenvolvido e em muitos países emergentes,
incluindo a China continental.
LUTERO, MAQUIAVEL E O SALMÃO
A ferrovia transformou a
Revolução
Industrial em
fato concreto. O que havia sido revolução virou
establishment e desencadeou um boom que durou quase 100 anos. A
tecnologia da máquina a vapor não chegou
ao fim com
a ferrovia. Ela levou à
turbina a vapor, nos anos de 1880 e 1890, e, nas décadas
de 1920 e 1930, às últimas
magníficas
locomotivas a vapor americanas, tão apreciadas pelas pessoas
cujo hobby é estudar trens. Mas a tecnologia centrada na
máquina a vapor e nas operações de
manufatura
deixou de ser central. Em lugar dela, a dinâmica
tecnológica transferiu-se para indústrias novas,
que
surgiram quase imediatamente depois da
invenção da ferrovia e não para
qualquer coisa relacionada a vapor ou máquinas a vapor.
O telégrafo e a fotografia
vieram primeiro, na
década de 1830, seguidos pouco depois pela óptica
e pelos equipamentos agrícolas. A nova e diferente
indústria dos fertilizantes, que surgiu no final dos anos de
1830, não demorou a transformar a agricultura. A
saúde pública tornou-se uma atividade importante
e central. Ela não parou de crescer com o
surgimento de quarentenas e vacinas, nem com o fornecimento de
água potável e de redes de esgoto
que, pela primeira vez na História, fizeram da cidade um
hábitat mais saudável do que o campo.
Os primeiros anestésicos surgiram na mesma época.
Essas tecnologias novas e
importantíssimas foram
acompanhadas por novas instituições sociais:
serviço postal moderno, jornal diário, bancos de
investimentos e
bancos comerciais, para citar apenas alguns poucos. Nenhuma
delas
guardava muita relação com a máquina a
vapor ou com a tecnologia da Revolução
Industrial de modo geral. Foram essas
novas indústrias e instituições que,
em 1850, já dominavam a paisagem industrial e
econômica dos
países desenvolvidos.
Foi algo muito semelhante ao que
acontecera com a
revolução da imprensa, a primeira das
revoluções tecnológicas que tiveram
lugar no mundo moderno. Nos 50 anos
que se seguiram a 1455, quando Gutenberg aperfeiçoou a
imprensa e os tipos
móveis nos quais trabalhara durante muito tempo, ela
difundiu-se pela Europa e transformou por completo a economia e a
psicologia do continente. Mas os livros impressos nos primeiros 50
anos, os chamados
incunábulos, continham em grande parte os mesmos textos que
os monges vinham copiando há
séculos de maneira tão trabalhosa: obras
religiosas e os remanescentes dos escritos da Antiguidade.
Naqueles primeiros 50 anos foram
publicados cerca de 7 000
títulos, em 35 000 edições. Desses,
pelo menos 6 700 eram tradicionais. Em outras palavras, em seus
primeiros 50
anos de existência a imprensa tornou disponível, a
preços cada vez
mais acessíveis, produtos de
informação e comunicação
tradicionais. Mais tarde, cerca de 60 anos após Gutenberg,
surgiu a Bíblia alemã de Lutero. Milhares de
cópias dela foram vendidas quase imediatamente a um
preço inacreditavelmente baixo. Com a Bíblia
de Lutero, a nova tecnologia de
reprodução
impressa abriu o caminho para uma nova sociedade. Abriu caminho
também para o protestantismo, que conquistou metade
da Europa e, no prazo de 20 anos, forçou a Igreja
Católica a reformar-se. Lutero
utilizou a nova mídia da letra impressa de maneira
deliberada, com o objetivo de levar a religião de volta ao
lugar central da vida individual e da sociedade. Isso
desencadeou um século e meio de reformas,
revoltas e guerras religiosas.
Ao mesmo tempo que Lutero utilizava a
imprensa com a
intenção declarada de reformar a cristandade,
Maquiavel escrevia e publicava O Príncipe (1513), o primeiro
livro ocidental em mais de 1000 anos a não conter uma
única
citação bíblica e nenhuma
referência aos escritores da Antiguidade. Em
pouquíssimo tempo, O Príncipe tornou-se o outro
best-seller do século 16, seu livro mais notório
e mais influente. Logo surgiu uma abundância de obras
puramente
seculares, aquilo a que hoje damos o nome de literatura: romances e
livros de ciências,
história, política e, pouco depois, economia.
Não demorou para que surgisse na Inglaterra a primeira forma
de arte puramente
secular, o teatro moderno. Também surgiram
instituições totalmente novas: a ordem
jesuíta, a infantaria espanhola, a primeira marinha moderna
e, finalmente, o Estado nacional soberano.
Em outras palavras, a
revolução da
imprensa
antecipou a trajetória cumprida pela
Revolução Industrial 300 anos mais tarde
e que
é seguida pela
Revolução da Informação nos
dias de hoje. Ninguém pode prever, por enquanto,
quais
serão as novas
indústrias e instituições. Nos anos
de 1520,
ninguém previa o surgimento da literatura secular, muito
menos
do teatro secular. Na
década de 1820, ninguém previa o
telégrafo
elétrico, a saúde
pública ou a fotografia.
Tornamos a repetir: a única
coisa altamente
provável, se não quase certa, é que
nos próximos 20 anos vamos assistir ao surgimento de uma
série de novas
indústrias. Ao mesmo tempo, é quase certo que
poucas delas vão sair da tecnologia da
informação, do computador, do processamento de
dados ou da Internet. Essa previsão é
fundamentada pelos
precedentes históricos, mas também se aplica
às novas indústrias que já
estão nascendo em
ritmo acelerado. Como já dissemos, a biotecnologia
já está entre nós. E a
criação comercial de peixes,
também.
Vinte e cinco anos atrás o
salmão era
uma iguaria
delicada. Nos jantares oferecidos em convenções
comerciais, podia-se optar entre frango e carne bovina. Hoje em dia, o
salmão é um produto comum e a terceira
opção de praxe nos jantares de
convenções. A mesma coisa se aplica, com
freqüência cada vez maior, às trutas.
Dentro em
breve, ao que tudo indica, se
aplicará a uma série de outros peixes. O
linguado, por
exemplo, que está para os frutos do mar como a
carne de porco está para a carne bovina, está
entrando em
fase de produção
oceânica em massa. Isso certamente levará ao
desenvolvimento genético de novos e diferentes peixes,
exatamente como a
domesticação de ovelhas, vacas e galinhas levou
ao
desenvolvimento de novas raças desses animais.
Mas é provável que
cerca de uma dúzia
de tecnologias se encontrem na fase em que a biotecnologia estava 25
anos atrás - ou seja, prontas para emergir.
Tamb&eaacute;m existe um serviço aguardando o
momento de nascer: o dos seguros contra o risco de
exposição a moedas estrangeiras. Agora que toda
indústria ou negócio integra a economia mundial,
esse tipo de seguro é tão necessário
quanto os seguros contra riscos físicos
(incêndios,
inundações) nas etapas iniciais da
Revolução Industrial, época em que
surgiram os seguros tradicionais. Todos os conhecimentos
necessários para criar seguros contra a
instabilidade das moedas estrangeiras existem. Só
está faltando a
instituição propriamente dita.
Nas próximas duas ou
três décadas,
provavelmente assistiremos a transformações
tecnológicas muito maiores que as ocorridas nas
décadas que se passaram desde o
nascimento do computador e também a
transformações ainda maiores na estrutura
industrial, na paisagem econômica e, possivelmente,
também na social.
O GENTLEMAN VERSUS O TECNÓLOGO
As novas indústrias que
surgiram depois da
ferrovia deviam
pouco, em termos tecnológicos,
à máquina a
vapor ou à Revolução Industrial de
modo geral. Não eram seus filhos de carne, mas,
sim, seus
filhos em espírito. Tornaram-se possíveis apenas
devido
à mentalidade criada pela
Revolução Industrial e às
habilidades por ela
desenvolvidas. Era uma mentalidade que aceitava -
na verdade, saudava efusivamente - novos produtos e
serviços. Também
criava os valores sociais que possibilitavam o surgimento das
novas indústrias. E, sobretudo, criava a
figura do tecnólogo.
O sucesso social e financeiro passou
longe, por
muito tempo, do
primeiro tecnólogo americano importante, Eli Whitney, cujo
descaroçador de
algodão, inventado em 1793, foi tão essencial
quanto a máquina a vapor para a
consolidação da
Revolução Industrial. Uma
geração mais tarde, porém, o
tecnólogo,
ainda autodidata, já se transformara
em herói popular americano, figura socialmente aceita e
financeiramente recompensada. O primeiro exemplo disso talvez tenha
sido Samuel Morse, o inventor do telégrafo. O mais
respeitado e
célebre foi
Thomas Edison. Na Europa, a figura do homem de
negócios continuou ainda por muito tempo a ser
vista como
socialmente inferior, mas, em 1830 ou 1840, o engenheiro
formado
em universidade já se tornara um
profissional respeitado.
Na década de 1850, a
Inglaterra já perdia sua
posição de preeminência e
começava a ser superada por uma economia industrial,
primeiramente pelos Estados Unidos, depois
pela Alemanha. A idéia comumente aceita é que a
razão principal disso
não foi nem econômica nem tecnológica,
mas social. Economicamente falando, e mais ainda em termos financeiros,
a
Inglaterra continuou a ser a maior potência até a
Primeira Guerra Mundial. Em termos
de tecnologia, manteve-se na dianteira durante todo o
século 19. As tinturas sintéticas para
tecidos, primeiros produtos da moderna indústria
química, foram lá inventadas, assim como a
turbina a vapor.
Mas a Inglaterra não aceitou
o tecnólogo em
termos sociais, nunca o elevou à categoria de gentleman. Os
ingleses montaram escolas de engenharia de primeira linha na
Índia, mas não em seu próprio
país. Nenhum outro país honrou a tal ponto a
figura do cientista.
De fato, a Inglaterra conservou a liderança no campo da
física durante todo o século 19,
desde James Clerk Maxwell e Michael Faraday até Ernest
Rutherford. Mas o tecnólogo continuou a ser visto como
pequeno comerciante. Dickens, por exemplo, manifestou desprezo
declarado pelo dono da
fundição de ferro oriundo de uma classe social
inferior em seu romance Bleak House (Casa Soturna), de 1853.
Tampouco foi na Inglaterra que surgiu a
figura do
capitalista de
investimentos, que possui os meios e a mentalidade
necessários para financiar o inesperado e o
não comprovado. Invenção
francesa, primeiro
retratada na monumental A Comédia Humana, de Balzac, na
década de 1840, o capitalista de investimentos foi
institucionalizado nos Estados Unidos por J. P.
Morgan e, ao mesmo tempo, na Alemanha e no Japão
pelo banco
universal. Mas a Inglaterra,
apesar de haver criado e desenvolvido o banco comercial (para
financiar o comércio), não
possuía instituições que
financiassem a
indústria - até que dois refugiados
alem&attilde;es,
S. G. Warburg e Henry
Grunfeld, lançaram em Londres um inovador banco
empreendedor, pouco antes da Segunda Guerra.
O SUBORNO DO TRABALHADOR DO CONHECIMENTO
O que seria preciso para impedir que os
Estados Unidos se transformem
na Inglaterra do século 21? Estou convencido de que
é uma mudança radical na
mentalidade social, do mesmo modo que a posição
de liderança na economia industrial,
após o
advento da ferrovia, exigiu a mudança drástica de
pequeno comerciante para tecnólogo ou engenheiro.
Aquilo que chamamos de
Revolução da
Informação é, na realidade, uma
revolução do conhecimento.
A rotinização dos processos
não foi
possibilitada por máquinas. O computador, na verdade,
é apenas o gatilho que a desencadeou. O software
é a
reorganização do trabalho tradicional, baseado em
séculos de experiência, por meio da
aplicação
do conhecimento e, especialmente, da análise
lógica e sistemática. A chave
não é a
eletrônica, mas sim a ciência cognitiva.
Isso significa que a chave para manter a
liderança na
economia e na tecnologia que estão prestes a emergir
provavelmente será a posição
social dos trabalhadores do conhecimento e a
aceitação social de seus valores. Se eles
continuassem sendo funcionários
tradicionais e tratados como tais, isso equivaleria ao tratamento que a
Inglaterra deu a seus
tecnólogos. E as conseqüências
provavelmente seriam semelhantes.
Hoje, porém, estamos tentando
ficar em cima do muro: manter
a mentalidade tradicional - na qual o recurso-chave é o
capital e quem manda é o
financista - e, ao mesmo tempo, subornar os trabalhadores
do conhecimento, com bônus e
opções de
compra de ações - para que se contentem em
continuar senndo meros empregados. Mas isso vai funcionar, se
é que
vai, apenas enquanto as indústrias emergentes desfrutarem da
explosão no mercado
acionário, como vem sendo o caso das empresas ligadas
à Internet. As próximas
indústrias de grande monta provavelmente irão
comportar-se muito mais como as tradicionais. Ou seja,
crescerão de maneira
lenta, dolorosa e à custa de muito esforço.
As primeiras indústrias da
Revolução
Industrial - têxteis de algodão, siderrurgia e
ferrovias - eram indústrias explosivas. Elas geraram
milionários
da noite para o dia, como os banqueiros de investimentos de Balzac ou o
dono da fundição de
ferro retratado por Dickens, que, em poucos anos, passou de
humilde criado a capitão de
indústria. As indústrias que surgiram depois de
1830 também geraram milionários. Mas levaram 20
anos para
fazê-lo. Foram 20 anos de trabalho duro, lutas,
decepções, fracassos e poupança.
É provável que a mesma coisa se aplique
às indústrias que vão surgir daqui
para a frente. Isso já está acontecendo com
a biotecnologia.
Está claro, portanto, que
subornar os
trabalhadores do
conhecimento - de quem dependem essas indústriias -
simplesmente
não vai funcionar. Os
trabalhadores-chave do conhecimento certamente vão continuar
tendo a expectativa de poder compartilhar financeiramente os
frutos de seu trabalho. Mas é provável que esses
frutos
financeiros levem muito mais tempo
para amadurecer, se é que vão amadurecer.
Então,
provavelmente dentro de uns dez anos,
administrar um negócio que tenha como sua primeira (quando
não única) meta e justificativa
o valor para o acionista (valor de curto prazo) passará
a ser contraproducente. Cada vez mais, o desempenho dessas
novas
indústrias baseadas no conhecimento vai depender de as
instituições
serem administradas de maneira a atrair, reter e motivar os
trabalhadores do conhecimento. Quando satisfazer a cobiça
de tais trabalhadores, como hoje estamos tentando fazer, deixar de ser
suficiente, será preciso
atender seus valores e oferecer-lhes reconhecimento e poder social.
Para isso, será preciso
transformá-los de subordinados em colegas executivos. De
empregados, por mais bem pagos que possam ser, em
sócios. Ele recomenda As obras citadas por Peter Druker
artigo
| Livro |
Autor |
Editora |
Preço
em R$ |
| Relatório
sobre as Manufaturadas |
Alexander Hamilton |
Edição
do autor |
-* |
A
History of the
American People (Uma história do povo
americano)
|
Paul
Johnson |
HarperCollins
- USA
|
87,50 |
| Tempos
Difíceis |
Charles
Dickens
|
Edições
Paulinas
|
_* |
| Middlemarch |
George
Eliot |
Record |
44,50 |
A
identidade da
França
|
Fernand
Braudel
|
Globo
|
61,30**
|
O
Príncipe
|
Nicolau
Maquiavel
|
Bertrand
Brasil
|
24,00
|
Casa
Soturna
|
Charles
Dickens |
Nova
Fronteira
|
-*
|
| A
Comédia
Humana |
Honoré
de Balzac |
Globo |
527,00*** |
*Esgotado • **Em três volumes • ***Em 17
volumes •
Fontes: Câmara Brasileira do Livro e Livraria Cultura
|